quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Agricultura familiar ganha novos horizontes com programa da merenda escolar

Antes desanimados, pequenos produtores celebram nova fase: “Não pretendo mais trocar essa vida pela vida na cidade”


A Lei Federal N°11.947, que trata da aquisição de produtos para a alimentação escolar está mudando a vida de muitos daqueles que tiram da terra o seu sustento. Isso porque, desde 2010, o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) exige que as escolas públicas estaduais e municipais adquiram, no mínimo, 30% dos alimentos da merenda escolar de pequenos produtores rurais.

 Em São Sebastião do Paraíso, onde a lavoura sempre foi protagonista na geração de emprego e renda, a história não foi diferente. E o casal de produtores Vanderlei Martins Sá e Aparecida Reis são testemunhas de que o programa do Governo Federal trouxe novos rumos para a agricultura familiar.

Antes, desmotivados com o cultivo da banana, Vanderlei e Aparecida cogitaram a possibilidade de vender a propriedade na região da Queimada Velha e se mudarem para a cidade com suas duas filhas. A ideia só não foi colocada em prática graças à Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais), que apresentou o programa aos produtores. “Não pretendo mais trocar essa vida pela vida na cidade. O programa é um incentivo para o produtor não sair da roça. Depois que começamos a vender as frutas para a merenda escolar, nós ficamos animados a continuar aqui”, conta Vanderlei.

 Na propriedade de pouco mais de cinco hectares, dos quais quatro são destinados à agricultura, o casal possui algo em torno de quatro mil bananeiras, que lhes rendem cerca de 1.300 caixas da fruta por ano. Todas devidamente entregues às instituições de ensino às segundas-feiras. O produto que hoje alimenta milhares de crianças e adolescentes paraisenses, por muitas vezes, chegou a estragar pela falta de compradores. “As coisas melhoraram muito. Antes, perdíamos até metade da safra. Hoje não se perde nada”, afirma Aparecida.

Os agricultores também cuidam de uma plantação de duas mil figueiras. No entanto, planejam substituir parte dessa cultura por mais bananeiras. Mesmo colhendo 15 toneladas de figo por safra, o casal afirma que o produto exige mais cuidados e maiores investimentos e gastos. Na época da colheita, Vanderlei e Aparecida precisam contratar uma terceira pessoa para ajudá-los.

O valor de comercialização das bananas fornecidas às escolas e os programas de crédito oferecidos por instituições financeiras também são celebrados por Vanderlei e sua esposa. Com as garantias, os produtores investiram cerca de R$ 60 mil em uma câmara fria com capacidade de armazenar até 250 caixas de banana e uma caminhonete para transportar as frutas. “Já sofremos muito, mas hoje conseguimos manter e investir em nossa propriedade. Hoje está mais fácil conseguir créditos. Se a pessoa quiser trabalhar, tem recurso para fazer tudo”, completa Vanderlei.

A fartura na produção é tão grande que os dois afirmam ter plenas condições de vender mais do que o valor máximo permitido pelo Governo Federal, que hoje é de R$ 9 mil/ano por Declaração de Aptidão do Pronaf (DAP), concedida para as propriedades que se dedicam à agricultura familiar. Para que isso possa acontecer, é necessário que o órgão aprove um projeto que eleva o teto de vendas para R$ 20 mil anuais por produtor.

Além da alteração, que deve ser sancionada em julho, os agricultores de São Sebastião do Paraíso já podem vender mais do que o limite de R$ 9 mil por DAP graças à união da classe.  “Isso foi possível porque o grupo, com o apoio da Emater e do Departamento Municipal de Agricultura, conseguiu a DAP Jurídica para a associação dos produtores. Dessa forma, eles poderão vender tudo o que as escolas necessitarem em nome da associação”, esclarece Marco Aurélio Alves de Paula, presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável (Cmdrs).

Sobre o sentimento de ver seu negócio prosperar, Vanderlei se emociona: “Trabalhávamos de empregados, não tínhamos nada e hoje estamos prosperando, graças a Deus. Me sinto um rei. Se a pessoa tem vontade de trabalhar e de crescer, pode ter certeza que chega lá”.